segunda-feira, 29 de abril de 2019

No Hotel

Já estamos instalados no hotel, que aliás é fantástico e está muito bem localizado. Agora são 18:55h aqui em Varsóvia e às 19:00h vamos jantar (desta vez comida de verdade com garfo e faca...). Aproveito esse momento para contar um pouco mais sobre o que fizemos até aqui e compartilhar mais algumas imagens. Mas, somente mais tarde, deverei ter tempo de postar um vídeo aqui no blog (não vão dormir sem checar!).


Entrada do Hotel

Parece que foi ontem que saímos do Brasil! Tecnicamente foi. Mas já passamos por muitas coisas: São Paulo, Paris, Varsóvia. Ao chegar em Varsóvia fomos recebidos pela Jéssica, que será nossa guia durante toda essa semana. Nossa primeira parada na capital polonesa foi o cemitério judaico de Varsóvia. Em hebraico há muitas maneiras de dizer cemitério "beit hakvarot" (literalmente: "casa dos túmulos"), "beit haalmin" ou "beit hachayim" (literalmente: "casa da vida"). O cemitério é a "casa da vida" ou "casa dos vivos" pois nossas almas são eternas e os que descansam no cemitério permanecem sempre vivos.  

Mas, aqui em Varsóvia, essa última expressão se aplica em todos os sentidos. É o cemitério, ainda ativo por sinal, que mantém acesa a vida judaica de Varsóvia. A cidade foi devastada no final da guerra (em parte como resultado do levante e de outras rebeliões contra os nazistas). Diz-se que a média de altura das construções em Varsóvia em 1945 era de 3m. Portanto, sinagogas, escolas, casas, e tudo o mais que pudesse remeter a uma vida judaica foi praticamente varrido daqui. O cemitério é o registro vivo de centenas de anos de vida judaica pujante.

Até 1939, haviam cerca de 300.000 judeus em Varsóvia. Judeus que viviam aqui há muitas gerações. Nos próximos dias passaremos mais tempo em Varsóvia e vamos falar mais sobre o que aconteceu aqui durante a guerra. Os nazistas tentaram varrer a lembrança do judaísmo, mas o cemitério mantém sua memória e nos conta quem foram e como viveram. Cada uma dessas pessoas no cemitério tem um nome.








Pra nós, membros de uma comunidade gaúcha que congrega, se tanto, apenas 10.000 judeus em Porto Alegre e onde se radicaram há apenas 100 anos é impossível entender a dimensão de uma comunidade com 300.000 membros após 600 anos de existência. O cemitério de Varsóvia dá essa dimensão. É um lugar enorme, e revela uma próspera comunidade, do ponto de vista cultural, social e religioso. Aqui estão enterrados grande rabinos e eruditos, também médicos, acadêmicos, poetas e escritores. Aqui está enterrado Ludwig Zamenhof, criador do idioma Esperanto e Itzchak L. Peretz, uma luz da literatura íidiche. Uma pequena amostra da importância dessa comunidade e de suas contribuições para o mundo.


Vimos também o túmulo de Adam Czernizakow, lider do Judenrat, o conselho judaico do Gueto e que preferiu suicidar-se a entregar crianças para a deportação e o extermínio. Uma decisão difícil e que não podemos julgar.



Túmulo de Zamenhof, criador do Esperanto

Túmulo de Adam Czerniakow

Túmulo de Zamenhof, criador do Esperanto

Túmulo de I. L. Peretz

Túmulo de I. L. Peretz


Caminhamos pelas longas alamedas do cemitério. Vez que outra nos deparamos com pedaços de túmulos. Os nazistas utilizavam frequentemente pedras de túmulos (matzevot) para pavimentar as ruas ou para construir muros, de modo que há ainda muitos pedaços espalhados pelo cemitério. Vimos túmulos em hebraico, outros em iídiche ou polonês, dando uma dimensão também da pluralidade desta comunidade. Aprendemos sobre os diferentes sinais que aparecem nos túmulos e seus significados. Vimos túmulos recentes de sobreviventes enterrados já no século XXI. Alguns já viviam em outros países, como os Estados Unidos, mas pediram para ser enterrados em sua cidade natal.

Uma das mais tristes realidades do cemitério, no entanto, é a vala comum. Durante os anos da guerra, aqueles que morreram de fome no gueto e cuja família não possuía os meios ou a força para providenciar um túmulo foram sepultados em uma vala comum que reúne milhares de corpos. Estes foram enterrados sem nome. Muitos destes não tiveram nem sequer um familiar para acompanhar seu sepultamento, ocupados que estavam em conseguir um pedaço de pão para sobreviver mais um dia ou porque tiveram o mesmo destino antes do seu.

Ali recitamos um El Malê Rachamim e um Kadish, uma breve cerimônia de recordo - por milhares que não puderam sequer ser lembrados por seus entes queridos.

Em frente à vala comum

Ouvimos da Jéssica muitas histórias sobre pessoas incríveis e um conto de I. L. Peretz. Deixamos o cemitério com a sensação de que há muitas histórias para aprender neste lugar. Muita vida judaica, muitas histórias de heroísmo e muito para aprender sobre a humanidade.

São 18:55 (13:55h no Brasil). Agora vamos jantar e mais tarde eu volto.

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