terça-feira, 30 de abril de 2019

Nosso dia em Palavras

Como já falei antes, já estamos de volta à Varsóvia, instalados no nosso hotel. Conto agora um pouco sobre nosso dia, que começou em Lodz (os polacos pronunciam Wudj) e terminou em Chelmno. Ontem, visitamos o cemitério de Varsóvia onde aprendemos muito sobre a vida e a comunidade judaica da capital. Hoje, começamos a conhecer sua morte: pela primeira vez vimos um campo de extermínio e tivemos um contato mais próximo com o que aconteceu durante a Shoá.

Nosso primeira parada foi o cemitério de Lodz - o maior cemitério judaico da Europa - onde aprendemos um pouco mais sobre os costumes relacionados ao cemitério, à dignidade do corpo e à santidade da vida.

Na tradição judaica há uma grande preocupação com a pessoa - a alma e o corpo. Com cuidado muito especial, a Chevra Kadisha cuida individualmente de cada pessoa - rico ou pobre, sábio ou tolo - com humanidade e dignidade. É o oposto do esforço sádico dos nazistas para desumanizar, a preocupação é valorizar o ser humano ao máximo, mesmo depois de morto. 

Entrada do Cemitério

Entrada do Beit Tahará - Casa de Preparação dos corpos

Sala de Tahará

Aprendemos também no cemitério sobre a diversidade dos judeus de Lodz, em sua maioria trabalhadores, muitos judeus chassídicos  e uma família considerada das mais ricas da Polônia no auge da indústria têxtil em Lodz - os Poznansky.

Vimos seu imenso mausoléu, adornado no interior por dois milhões de ladrilhos de vidro, trazidos especialmente de Veneza. Um edifício imponente, incomum em cemitérios judaicos que costumam ter por regra que todos os túmulos (por recato) devem ter tamanhos parecidos.

Mausoléu de Poznanski

Cemitério de Lodz

Neste cemitério há um projeto que já dura anos, do exército de Israel, para identificar e preservar a memória dos milhares de judeus que morreram no gueto de Lodz e não receberam uma Matsevá. Soldados israelenses vem para cá todos os anos, aprendem a história do lugar e produzem placas para os assassinados aqui com a maior quantidade de dados que conseguem recolher - nome, data de nascimento, data de falecimento. Às vezes, conseguem apenas identificar um nome e, por vezes, nem isso. Todos os óbitos foram documentados pelos judeus que viveram no gueto, registraram as mortes e enterraram os corpos, mas não alcançaram o "luxo" de colocar uma matsevá (lápide) com seus nomes sobre o túmulo. Novamente, é o trabalho inverso do realizado pelos nazistas - trata-se de humanizar e "devolver o nome" a essas pessoas.





De lá, fomos para o Radegast, a praça de deportação de onde foram deportados centenas de milhares de judeus do Gueto de Lodz para campos de extermínio. Ouvimos da Jéssica (nossa guia) uma explicação sobre o funcionamento do Gueto e sobre a deportação dos judeus de Lodz para campos de extermínio.

Radegast

Radegast

Radegast


Há uma locomotiva da época. Atrás dela, vagões de gado com pequenas aberturas laterais, o suficiente para ventilar um pouco de ar, mas não para atenuar a sensação de clausura experimentada por quem entra.

Entramos no vagão. Nós somos apenas 28. E ficamos lá apenas por poucos minutos. Ainda assim, experimentamos o desconforto que o vagão proporciona. Nazistas forçavam nestes vagões, não raro, uma centena de pessoas. Sem pão e sem água. Sem banheiro, sem dignidade. Sem saber se viajariam por algumas horas ou por vários dias (e, às vezes, a viagem durava muitos dias). Não havia lugar para que todos se deitassem ao mesmo tempo.

Vagão


Nesses vagões, pais levavam seus filhos, por vezes, ainda bebês. Apinhavam-se nos cantos pessoas de todas as idades, confinadas como gado. Conviviam com os corpos dos que não resistiram, num apertado espaço fedorento, onde não havia banheiro ou privacidade. Idosos lutavam contra a fome, o frio ou o calor, alentados apenas pela esperança de que, talvez, quem sabe, aquele trem não os levaria para a morte, mas para algum campo de trabalhos ou outro destino - o que, com raras exceções, não acontecia.
Vagão


(Para quem quiser conhecer essa triste realidade e seus dilemas, sugiro assistir "O Último Trem para Auschwitz", que conta a história de 688 judeus deportados de Berlin e sua viagem no trem).

De dentro do vagão, pessoas escreviam mensagens e, nas paradas, procuravam desesperadamente passar os bilhetes a alguém - um trabalhador da ferrovia ou um transeunte - na esperança de que fizesse o bilhete chegar a um ente querido para avisar que estava vivo e que estava "tudo bem". E se fosse possível escrever um bilhete dentro de um terrível trem como esse, o que escreveríamos? Quais seriam nossos desejos, nossas últimas palavras a quem amamos? A quem endereçaríamos nossas últimas palavras? A quem pediríamos ajuda?

Passamos ao lado de um monumento. Visto de fora, o monumento se assemelha a um longo trem, no qual estão estampados os anos da guerra e que é puxado por uma locomotiva que se parece a uma chaminé de um forno crematório. Por dentro, é um comprido túnel em cujas paredes estão expostas as listas de nomes dos deportados para a morte. As listas são, por si só, um testemunho da crueldade e da eficiência da máquina de morte nazista. Catalogavam, pesquisavam e ordenavam o transporte e a morte de milhões. A humanidade já havia presenciado massacres, guerras e chacinas. Mas nunca antes na história se orquestrou com tamanha racionalidade e de forma tão sistemática o assassinato de milhões. E, vale repetir constantemente, é nosso dever assegurar que nada que se assemelhe jamais volte a acontecer.

Monumento (exterior)

Monumento (interior)

Monumento (interior) - Listas de Deportação

Monumento (interior)


O Gueto de Lodz foi um dos mais organizados, graças a uma controversa política do seu Judenrat, liderado pelo polêmico Chayim Rumkovsky. Ele era encarregado de fazer o gueto produzir - utilizando até mesmo o trabalho das crianças. Os "não produtivos" não recebiam para comer. Por este motivo, foi o gueto que mais tempo funcionou, justamente por ser produtivo, durante a guerra. Eles produziam principalmente uniformes para os nazistas e assim tiveram alguma sobrevida. Enquanto os guetos de Cracóvia e Varsóvia já haviam sido totalmente "liquidados" em 1943, o gueto de Lodz sobreviveu até outubro de 1944. Se a guerra tivesse terminado alguns meses mais cedo, milhares de judeus, talvez 150 mil, teriam se salvado da morte (mais tarde contarei mais sobre isso).

De lá, fomos para Chelmno, onde funcionou o primeiro Campo de Extermínio. Menos "sofisticado" do que Auschwitz, o campo utilizava caminhões para asfixiar e assassinar as vítimas com o monóxido de carbono do escapamento. Calcula-se que cerca de 200 mil pessoas tenham sido assassinadas em Chelmno.

Chelmno

Chelmno

Chelmno

Chlemno

Chelmno

Chelmno

Chelmno

Hoje há no campo um museu. O lugar é muito bonito e transmite uma tranquilidade assustadora, tratando-se de um lugar tão terrível. Esse é um dos aspectos mais angustiantes de visitar a Polônia para conhecer a história da Shoá (ainda falarei disso bastante): o país é lindo. As paisagens são agradáveis, serenas. Tudo parece estar em harmonia com a vida e com a primavera. A grama é verde, o sol é profundamente azul: NÃO DEVERIA SER! Toda essa beleza é perturbadora. É difícil entender que foi o palco de tantos crimes e tragédias inomináveis.

Ouvimos uma canção. Buscamos no muro do monumento nomes de vítimas, lembradas por amigos e parentes. Estivemos aqui. Também nós não deixaremos que seus nomes sejam esquecidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Embarcados

Já estamos embarcados no último trecho. Nosso voo deve decolar às 12:45 e chegar em POA às 14:55h. Ou seja, em breve estaremos em casa. ...