Hoje estivemos na cidade de Lodz. A cidade já reuniu quase 250 mil judeus. Imagine o que é isso! Nós, em Porto Alegre, vivemos em uma cidade onde há apenas 10 mil judeus. E a grande maioria destes só chegou após o século XX, portanto, há apenas 100 anos. Aqui há centenas de milhares de judeus, parte de uma comunidade plurissecular. Se, em Porto Alegre, há 3 cemitérios, clubes judaicos, colégio. Imagine o tamanho do cemitério de Lodz. Pense na riqueza cultural que havia aqui. Os judeus representavam mais de um terço da população local na cidade.
Lodz foi também a capital da indústria têxtil européia antes da guerra (era conhecida como a "Manchester polonesa"), graças a essa rica e desenvolvida comunidade judaica. Essa comunidade, assim como a de Varsóvia, foi confinada a um pequeno Gueto que permaneceu ativo até 1944 quando foi praticamente exterminado, através do transporte de seus habitantes em trens para Auschwitz, Chelmno (onde estivemos hoje) e outros campos.
O Gueto era comandado pelo Judenrat (lê-se Yudenrat), um grupo de judeus designado pelos nazistas para fazer cumprir suas ordens. Parte da crueldade e da eficiência do sistema nazista consistia em transferir para a vítima participação no crime, deixando na mão do Judenrat o comando de ações no Gueto. O líder do Judenrat no Gueto de Lodz: Chayim Rumkovsky.
Como comentei antes, este foi o Gueto que perdurou por mais tempo durante a guerra. Muitos atribuem isso às difíceis decisões tomadas por Rumkovsky, uma pessoa de personalidade complexa, na tentativa de fazer com que o maior número de judeus sobrevivesse, privilegiando os mais saudáveis, que podiam trabalhar para os nazistas, mantendo assim a utilidade do gueto, o que conferia algum valor às suas vidas. Rumkovsky mandava imprimir dinheiro no Gueto, que ele mesmo assinava e se comportava como se fosse o rei ou presidente de um pequeno país. Por outro lado, trabalhou para - ao menos na sua visão - salvar o máximo possível de vidas.
O Gueto passou por dilemas aos quais um ser humano jamais deveria ser exposto, como, por exemplo, o que fazer quando os nazistas pedem a deportação de 20 mil pessoas do Gueto? Quem deve ir? Quem deve decidir isso? Os que tem mais chance de sobreviver devem ser priorizados?
Rumkovsky decidiu ter um Gueto produtivo. Fez uma escolha difícil, entendeu que precisava cooperar com os nazistas para salvar vidas. Ontem, em Varsóvia, aprendemos sobre Adam Czerniakow, o líder do Judenrat de Varsóvia, que se recusou a fazê-lo e se suicidou. Como podemos julgá-los?
Rumkovsky organizou o gueto para ajudar o esforço de guerra alemão. Produziam uniformes e ferramentas para os nazistas. Achava que o trabalho libertaria. Sua filosofia era: sobreviver mais um dia, fazer o gueto durar mais um dia - talvez a guerra acabe amanhã. De fato, o Gueto de Lodz foi o que mais durou, sendo fechado apenas em 1944. Privilegiava os que podiam trabalhar em detrimento dos "não produtivos" (idosos, doentes e crianças). Se a guerra terminasse seis meses antes, mais de 100 mil judeus teriam se salvado graças a Rumkovsky e ele seria um grande herói - talvez um dos maiores heróis da guerra. Infelizmente, isso não aconteceu e Rumkovsky é quase sempre lembrado como um tirano sem coração, além de ter encontrado o mesmo destino da maioria dos habitantes do Gueto: foi enviado a Auschwitz.
Divido com vocês o depoimento de Israel Tabaksblat (sobrevivente de Lodz) sobre como começou o Gueto e o discurso de Rumkosvky em um fatídico dia da guerra:
"Uma quarta-feira fria, dia 6 de Março de 1940. Fecharam a rua de Piotrakovska (onde viviam muitos judeus) por um destacamento de algumas centenas de pessoas uniformizadas.
Eram cinco da tarde e os judeus estavam proibidos de transitar nas ruas. Penetraram nos apartamentos com tiros e fizeram sair as pessoas às ruas. Deu-se a ordem: em cinco minutos todos devem deixar suas casas. Assim, grupos inteiros de pessoas foram transladados ao gueto. Esta mesma cena se repetiu no dia seguinte em outra ruas, de idêntica forma e de acordo ao mesmo plano. Apenas ao aproximar-se da noite detiveram a matança.... Os judeus da cidade, dezenas de milhares, foram transladados a Baluti (o bairro pobre da cidade)... uma caravana de pessoas carregando objetos sobre as costas e bebês em seus braços, enquanto as crianças maiores caminham ao seu lado, levando também eles fardos em suas mãos. Carregados com os restos de sua mísera equipagem são empurrados e golpeados pelo populacho que os acompanha a gritos e insultos."
Israel Tabaksblat
Agora, compartilho com vocês um trecho do discurso de Rumkowski, líder dos judeus de Lodz, sobre a deportação de crianças do Gueto, tradução livre deste que vos escreve (a íntegra, em inglês, pode ser lida aqui).
"Hão desferido um forte golpe contra nosso Gueto. Exige-lhe que entregue o que tem de mais querido: as crianças e os anciãos. Pessoalmente, não tive o mérito de ter filhos e, portanto, consagrei meus melhores anos para as crianças. Estive vivendo e respirando junto com as crianças.
Nunca havia imaginado que iriam obrigar-me a estender as mãos e pedir: 'Irmãos e irmãs, entreguem-se suas crianças! Pais e mães, deem-me seus filhos...!
Durante o dia de ontem, notificaram-me a ordem de expulsar do Gueto mais de 20.000 judeus e, caso não o fizera - disseram os nazistas - 'faremo-nos nós mesmos!'. A pergunta exposta é: 'devemos realizá-la nós mesmos ou deixar que a realizem eles?'...
Tenho que cumprir com esta difícil e sangrenta operação. Tenho que cortar membros para salvar o corpo. Tenho que evacuar as crianças e, caso não o realize - que D-s não me permita - outros também serão levados...
Hoje não posso trazer-lhes nenhum consolo. Muito menos vim aqui acalmar, mas sim para revelar suas penas e dores. Vim como um ladrão, para arrancar o mais querido que tens nos vossos corações. Tentei de tudo o que podia e sabia para anular a sentença. Quando não consegui, tentei atenuar. Somente ontem ordenei o registro das crianças de até nove anos. Ao menos, queria salvar este grupo, as crianças entre nove e dez anos, mas não me deixaram. Apenas consegui salvar as crianças de dez anos completos. Que isto nos sirva de consolo diante desta profunda dor."
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