Deixamos há pouco Cesareia e já estamos na estrada em direção ao Kibutz Lochamei Haguetaot (Kibutz dos Combatentes dos Guetos), onde faremos nossa parada para almoço. Depois seguiremos para Rosh Hanikrá, no extremo norte de Israel e, de lá, vamos a Haifa onde pernoitaremos esta noite. Abaixo o roteiro deste nosso primeiro dia em Israel. Basicamente costeamos o Mediterrâneo em direção ao norte.
Cesareia é um lugar impressionante por sua beleza e por sua riqueza. Ir a Cesareia é cercar-se de cores por todos os lados. É deixar-se hipnotizar pelo mar azul e pelo contraste com o céu e as ruínas. É tentar, em vão, compreender o significado de sua beleza. Esse encontro entre o mar e o céu semeia em quem vem à cidade a vontade de permanecer, de contemplar ou de arrancar um pedaço da paisagem e do mar para levar consigo para sempre.
Além disso, ir a Cesareia é fazer um mergulho na história, é viajar pelo tempo. Aqui, há dois mil anos, Herodes ergueu uma cidade em homenagem ao Cesar romano. Com uma avançada tecnologia de construção civil (e, claro, o trabalho forçado de milhares de escravos) Herodes ergueu uma imponente cidade em poucos anos. O porto da cidade, uma baía artificial, foi construído com um método revolucionário de concretagem submarina. Este porto foi a chave para a prosperidade da cidade após sua construção, inserindo-a na rota do comércio no mundo antigo.
Aqui viveram cristãos, romanos e judeus. O famoso Rabi Akiva chegou a habitar na cidade. O Talmud, porém, afirma (Meguilá 6a - em tradução livre): "se te disserem que Jerusalém está construída e Cesareia está destruída acredite. Se te disserem que Jerusalém está destruída e Cesareia construída acredite. Se te disserem que ambas estão destruídas ou ambas estão construídas não acredite, pois quando uma está no auge a outra está destruída". Há muitos diferentes comentários sobre esse trecho, mas, aparentemente, o Talmud enxerga Cesareia como o símbolo do domínio romano subjugando Israel, e Jerusalém como o símbolo da independência e da liberdade. Não podem ambas as situações conviver - não pode haver independência quando subjugados e não há domínio ou ditadura quando há liberdade. Cesareia foi o retrato do domínio romano sobre Israel.
Através dos anos, a cidade foi dominada por Bizantinos, árabes e cristãos. Foi remodelada, reinventada. Na era moderna, as terras da cidade foram compradas pelo Barão de Rotschild e uma nova Cesareia começou a emergir. Ao lado da cidade antiga, surgiu também o Kibutz Sdot Yam, onde vivia Hanna Szenes, judia húngara que voluntariou-se para combater os nazistas na Europa durante a segunda guerra. Ela saltou de para-quedas atrás das linhas inimigas, foi capturada, torturada e assassinada.
Caminhando pela praia de Cesareia fica fácil entender a inspiração de Hanna Szenes, que, vivendo aqui, compôs um famoso poema que se tornou também uma canção muito popular em Israel. No poema, além do profundo significado da palavras (sendo a abertura do poema baseado no salmo 22), as aliterações do Shin e do Resh transmitem a ideia do som das ondas e do vento no mar. Para aqueles que apreciam, Cecília Meireles utiliza recursos parecidos para obter o mesmo resultado, mas Hanna Szenes o faz de forma muito mais concisa e condensada. Abaixo transcrevo seu poema com tradução livre (deste que vos escreve) como também um link para ouvir a canção.
Eli, Eli
Eli, Eli
Shelo yigamer le'olam:
Hachol vehayam
Rishrush shel hamayim
Berak hashamayim
Tefilat ha'adam.
Meu D-s, Meu D-s
Meu D-s, Meu D-s
Que essas coisas jamais acabem:
A areia e o mar
O sussurro da água
O relâmpago do céu
A oração do homem.

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