Cracóvia é uma bela cidade e, ao contrário de Varsóvia, não foi totalmente devastada durante a guerra. Os nazistas escolheram a cidade para ser a capital do "Governo Geral" nazista na Alemanha. Essa escolha teria como objetivo também humilhar os poloneses - uma maneira do ocupante dizer ao país dominado: "Sua capital não é Varsóvia, a capital da Polônia é onde NÓS dissermos que é". Essa escolha provavelmente influenciou os nazistas a manter a cidade de pé - afinal de contas, não queriam viver em uma cidade em ruínas. Portanto, derrubar as sinagogas não seria conveniente. Ao invés disso, foram usadas como estábulos ou depósitos.
Além disso, parece que os nazistas também levaram em conta a história da monarquia polonesa que se instalara aqui no passado. Hans Frank, chefe do governo geral nazista na Polônia sentou-se no trono do castelo real de Wawel, símbolo da glória polonesa. De todos os modos, os nazistas não queriam viver em uma capital devastada. Preferiam que a arte, os prédios e estrutura da cidade fosse preservada, de modo que poupou-a durante os ataques que levaram à conquista da Polônia em 1939 (se compararmos ao pesado bombardeio que lançaram sobre Varsóvia).
Deste modo, as casas dos judeus, as sinagogas e tudo mais na cidade foi relativamente preservado. Por outro lado, os alemães queriam uma Cracóvia judenrein - "limpa de judeus" - de maneira que os judeus são expulsos de suas casas e forçados a deixar a cidade. São levados a cruzar o rio para o Gueto do outro lado. Este processo pode ser bem percebido no início do filme "A Lista de Schindler". No caso, o filme mostra, logo no início, que o próprio Schindler, como outros alemães, recebeu uma casa confortável da qual foi expulsa uma rica família judia, forçada a sair sem levar quase nada. (à propósito, o filme também documenta bem a "liquidação" do Gueto).
Portanto, o gueto aqui não ficava na zona mais habitada pelos judeus, mas do outro lado do Rio Wisła (pronuncia-se Vístula). Os judeus foram obrigados a cruzar a ponte, carregando seus pertences em carrinhos ou nas costas, para o outro lado.
Nós percorremos hoje, o caminho trilhado pelos judeus. Saímos do bairro judaico (Kasimierz) e atravessamos a ponte em direção ao gueto. Fomos conhecer a vida judaica antes da guerra. É importante lembrar sempre que a Polônia não é somente o lugar que lembramos durante a guerra, também foi o palco de uma próspera vida judaica durante mil anos - e também estamos aqui para conhecer vida.
A história dos judeus aqui é muito antiga. Se estabeleceram num distrito separado, chamado de Kazimierz, quando contavam com a proteção de Casimiro, o grande, rei da Polônia. De acordo com o que contam, Casimiro casou-se com uma judia, chamada Ester e estendeu sua boa vontade a todos judeus do reino. Gozavam de privilégios e do direito (um luxo para os judeus naqueles tempos) de ter autonomia.
Os judeus eram proibidos de morar em Cracóvia, por isso Casimiro, em 27 de Março de 1335 proclamou a zona de Kazimierz como uma cidade autônoma, onde era permitido aos judeus viver e prosperar. Em 1362, mandou construir muralhas de defesa para o distrito. Casimiro ficou conhecido pelos judeus como um grande protetor.
Nossa primeira parada em Kazimmierz foi o Alt Shul - a sinagoga mais antiga da Polônia e uma das mais antigas da Europa, datando do século 15 (mais antiga, portanto, do que o Brasil). A sinagoga é hoje um museu.
Em frente ao Alt Shul
Pelas Ruas de Kazimierz
Pelas Ruas de Kazimierz
Pelas Ruas de Kazimierz
De lá, fomos para a sinagoga do rabino Moisés Isserles, o Remá. Ele viveu aqui no século 16 e foi um dos maiores sábios do povo judeu, autor do maior código da lei judaica para os Ashkenazim e que foi incorporado ao Shulchan Aruch. Sua obra influencia até hoje a vida de milhões de judeus cotidianamente.
Visitamos também o cemitério anexo à sinagoga, onde o sábio e outros importantes rabinos estão enterrados. Lá, dizem, também está enterrado Yossele Kamtzan Kadosh (algo como "Yossele, o santo pão duro"), personagem de uma famosa história de Shlomo Carlebach. Mais tarde, quando houver mais tempo, conto essa história.
Túmulo do Remá
Na frente da sinagoga do Remá
Sinagoga do Remá
Fomos conhecer ainda outras sinagogas. Na sinagoga Isaac (pronuncia-se Aizek), escutamos a história de dua fundação e conhecemos o belo e amplo interior do templo. Esta sinagoga não se tornou um museu. Muito pelo contrário, funciona diariamente.
Sinagoga Isaac
Sinagoga Isaac
Ainda vimos a sinagoga Tempel, certamente a mais luxuosa de toda a Polônia atualmente. Lá, um grupo de austríacos participava de uma sessão de canções.
Sinagoga Tempel
Por todos os lados, respira-se judaísmo. As sinagogas estão de pé e muitas casas são originais - em muitas delas é possível ver as marcas das mezuzot de seus antigos donos. A atmosfera é contagiante. Todos os anos, um grande festival de música judaica tem lugar nas ruas do bairro. Nos cercam por todos os lados palavras em hebraico, edifícios históricos, locais turísticos e restaurantes típicos. Kazimierz é um lugar para viajar no tempo.
Casa com a Marca de Mezuzá na Porta
Passamos por uma praça, com barracas que vendem antiguidades. Uniformes de guerra, capacetes, documentos, pratos antigos e tudo o mais. Entre os objetos, muitos objetos que certamente pertenceram a judeus antes da guerra. Entre eles, a "roupa" que veste um Sefer Torá (rolo de Torá). Uma cena muito dura e que provoca um arrepio: ver exposto e à venda algo que costumeiramente fica guardado com respeito e santidade em nossas sinagogas.
Barraca de antiguidades
Na entrada do gueto, no local onde fora instalada a terrível praça de deportação há hoje um monumentos com cadeiras vazias. Em frente a elas, a farmácia de Thadeusz Pankewicz, um justo entre as nações, que se arriscou para salvar muitas vidas de judeus no gueto.
Atravessamos então a ponte, seguindo o mesmo caminho percorrido pelos judeus - deixando o bairro judaico para entrar ao Gueto. Do outro lado, um monumento.
Atravessando o rio
Atravessando o rio
Atravessando o rio
Monumento das cadeiras vazias
Monumento com as cadeiras vazias - ao fundo, a farmácia de Thadeus Pankiewicz
Uma praça deserta com as cadeiras vazias transmite o silêncio e o vazio deixado pelos judeus deportados, que desapareceram do dia para a noite - uma longa noite. A maior parte das cadeiras está de frente para a praça, representando os judeus que encaram seu amargo e quase inevitável destino. Outras cadeiras estão voltadas para o centro, como espectadores - poloneses que assistiram o que ocorria diante de seus olhos. Há ainda cadeiras que dão as costas para o que estava acontecendo: preferiam não olhar, fingir não saber o que se passava. Há poucas cadeiras que estão de frente para os judeus: pessoas que arriscaram suas vidas por não poder calar-se diante da barbárie.
Fomos visitar os fragmentos que restaram do muro do Gueto. Os nazistas, cinicamente, determinaram que o muro (construído com o dinheiro dos próprios judeus, que foram forçados a pagar pela construção de sua "zona residencial") deveria ser construído num formato que lembra as lápides de um cemitério judaico. Passamos ainda na fábrica de Oscar Schindler que funcionava próxima ao Gueto. Hoje há um museu na fábrica contando a história judaica de Cracóvia.
Agora seguimos nosso caminho para Varsóvia, onde vamos nos preparar para o Shabat.
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