domingo, 12 de maio de 2019

Palavras de Despedida

Agora são 10:50h aqui em Israel, ainda é madrugada aí no Brasil. Não se assuste, caro leitor, este não é o último post deste blog. Me permito aqui repetir um pouco do que já disse durante essas últimas duas semanas e também transcrevo impressões de outras viagens, acrescentando aqui outro tanto. 

Confesso a vocês, que aqui me leem, que quando chega o fim dessa jornada, sou tomado sempre de uma mesma sensação, embora a cada ano as reflexões e vivências possam ser bastante diferentes – já que o mundo ao nosso ao redor nunca é o mesmo e nós  nunca somos os mesmos.  Pode parecer bobo ou ingênuo, partindo de um adulto, mas acho que essa experiência me afeta tanto quanto a um adolescente. Não é minha primeira nem a segunda viagem, mas cada Marcha é para mim especial porque única. Sem embargo, o sentimento de que se completa aqui uma etapa e que algo muito grande nos uniu e seguirá sempre nos unindo – esta sensação me é familiar. Por isso, nesse momento, me vejo compelido a dizer algumas palavras de despedida e encontro adequado repetir algumas das ideias que, nos últimos anos, me acompanharam no encerramento de cada jornada.

Pois é, não parece, mas está chegando ao fim. A Marcha da Vida está chegando ao fim. Amanhã, não acordaremos juntos para o café nem faremos contagem no ônibus. Não haverá, muito provavelmente, salada, tomate, pepino, macarrão ou arenque no café da manhã de amanhã. O motorista não buzinará freneticamente enquanto balbucia expressões enérgicas como se tivesse sempre razão. As coisas serão diferentes amanhã.

Essa experiência deixará, claro, marcas indeléveis em todos nós, mas a fantástica sensação de se desconectar da realidade e mergulhar em um mundo de intensas vivências e profunda reflexão - uma realidade tão envolvente que nos faz esquecer a rotina (que parece estar tão distante) e nos permite trilhar uma jornada a nós mesmos - essa está por terminar. Durante duas semanas, é como se o mundo lá fora tivesse parado, como se não houvesse outra coisa a fazer, a não ser viver com máxima intensidade o que está por vir – curtir ao máximo ou se emocionar ao máximo. Rir ou chorar. É como se todo esse dia houvesse sido criado somente para que pudéssemos conhecer a história de um lugar, de uma pessoa, observar o mar ou para que pudéssemos comemorar o Yom Haatzmaut – no resto do mundo, apenas cantavam os passarinhos e nada mais acontecia que pudesse ser de qualquer importância. Amanhã o mundo desacelera. Nossa realidade desacelera. Tudo volta ao normal.

Pois aqui cada dia é vivido ao máximo – e, não raro, acordávamos em uma cidade para pernoitar em outra, passando ainda por uma terceira durante a tarde. Vimos desertos, lagos, mares, a Europa e a Ásia. Aprendemos a conhecer melhor nossos amigos, a dividir nossos sentimentos, nossas emoções. Conhecemos pessoas incríveis, nossos guias, seguranças, motoristas e colegas de outras partes do mundo que nos ensinaram muito ao longo do caminho e cuja amizade levaremos conosco ao Brasil.

Para você, fiel leitor, isso significa também que o blog se aproxima do seu fim. Durante as últimas semanas emprestei a vocês meus olhos, meu coração e minha pena. Olhos de lentes e pena de teclado. Foram os olhos, janela da alma, e a pena, válvula de escape do coração, que nos mantiveram tão unidos. Centenas de fotos, dezenas de vídeos, mais de cento e cinquenta postagens, tudo isso durante apenas duas semanas – duas intensas semanas, nas quais estivemos distantes, porém mais próximos do que nunca.

Acredito, portanto, que este é último post longo que escrevo neste Blog. Não será o último, porque ainda tentarei, bli neder e beEzrat Hashem, atualizar vocês no Ben Gurion, em Paris e no Galeão, mas a correria e as preocupações aeroportuárias certamente não me permitirão escrever mais do que um punhado de palavras. Portanto, aproveito nossas últimas horas aqui em Israel para escrever algumas palavras de despedida.

Sei que não são meus longos e mal escritos textos, coalhados de anacolutos, hiperbólicos, apinhados de adjetivos e imprecisos no estilo, que mescla e alterna, sem prévio aviso, entre o formal e o informal, o real e o imaginário, a razão e a emoção (e que arrisca um acido humor irônico quando uma porta se abre para tal) que atraem os leitores desta página. Sei que o que atrai os fiéis leitores deste Blog é o desejo de ver o brilho dos olhos e o sorriso dos rostos daqueles que amamos. Entendo o que os leva a, antes de ler qualquer palavra, percorrer com olhos frenéticos toda a página identificando com agilidade ímpar queridas faces numa foto, mesmo em meio a uma multidão de outras tantas. Imagino até mesmo a decepção quando não aparecem...

Não obstante, acredito que é adequado fazer uma despedida (e assim reza também a etiqueta) – afinal de contas ficamos juntos tanto tempo, sempre tão pertinho (apenas dez mil quilômetros de distância), tão íntimos, dividindo nosso choro e nossa alegria, compartilhando os detalhes de nossos dias e experiências – que não podemos nos despedir sem dizer adeus. Bom, chegou a hora de dizer adeus.


Amanhã não haverá mais Marcha da Vida, não haverá mais Blog, nem museus, parques, Vístula, Mar Mediterrâneo, abraços coletivos ou batata no café da manhã. Não haverá programação nem roteiro, mas nossa rotina, porque retomada. Não haverá motivo para sentar diante do computador de manhã bem cedo com uma xícara de café ou uma bebida gelada para acompanhar, ansiosamente, as notícias da viagem aqui publicadas, apreciando os sorrisos daqueles que amamos em meio a lindas paisagens que, ao lado dos autênticos semblantes de alegria de nossos filhos, parecem tão sem graça quanto cinzentos muros sob o céu nublado. Não haverá amanhã sentido para a frase "aqui o horário é tal e aí no Brasil são tantas horas"... Não far-se-á necessário um vídeo para contar, em 2 minutos, como foi  dia de cinquenta horas...

Amanhã, porém, estaremos ainda mais juntos. Não haverá espaço no Salgado Filho para os abraços acumulados durante esses últimos dias. Não haverá palavras para a alegria do reencontro. Será um daqueles dias em que o tempo entre a aterrissagem e o desembarque se arrasta, pesado como um paquiderme, e que a esteira de bagagens parecerá demorar uma eternidade (mais do que já demora sempre).

Por isso, aproveito esses últimos momentos para agradecer e me despedir: Obrigado a todos os que fizeram desse projeto um dos mais inovadores e bem sucedidos programas educacionais de nossa comunidade – coordenadores, professores, direção, pais (um grupo fantástico que trabalhou duro para que tudo isso fosse possível) e, principalmente, aos jovens tão especais que partilharam conosco estas duas semanas. Jovens que demonstraram tanto respeito uns pelos outros: se fosse só para ver  o carinho com o qual esses jovens tratam os colegas - só isso e mais nada - já valeria a pena essa viagem! Aos  pais que vestiram a camisa, venderam rifa, livros e organizaram peças: valeu a pena! Valeu muito a pena!

Agradeço também aos pais que confiaram em mim, na Nina, no Salo, na Ilse e em toda a equipe do Colégio com o que têm de mais precioso. Obrigado ao Israelita que acreditou há 10 anos nessa ideia e promove um empreendimento muito especial e que vai transformar o mundo – começando por transformar algumas vidas e um pouquinho de nossa comunidade. 

Um obrigado muito muito muito especial aos grandes parceiros, Salo e Nina - amigos, profissionais,  competentes. Foram companheiros, bem humorados e dedicados em todos os momentos. Transformaram a Marcha numa experiência perfeita. 

Principalmente, agradeço a minha esposa, Débora, sem a qual não haveria para mim nem blog, nem viagem, nem inspiração, nem alegria. É ela, de uma só vez, meu barco, minha vela e minha âncora nesta e em outras jornadas. Durante estas semanas, dividiu seu tempo entre a prática da medicina, o cuidado com os filhos, a casa, a comunidade – sem deixar de dedicar-se de maneira irretocável e admirável a nenhum destes – para permitir-me o privilégio de participar desta viagem. Sem ela eu não estaria aqui (realmente não sei onde estaria...). Não se trata, em todo caso, de um agradecimento, mas apenas de um reconhecimento, já que jamais poderei ser-lhe grato suficiente por fazer de mim quem sou.

Penso que voltamos da Marcha mudados, amadurecidos, mais conscientes de nossas responsabilidades e, principalmente, sabendo valorizar mais tudo que temos: nossa família, nossos amigos, nossa vida, nosso mundo – o mundinho e o mundão. Conhecendo um pouco mais sobre a vida, a beleza da bondade, do amor e do respeito ao próximo. Voltamos mais próximos dos valores de nossa Torá e do judaísmo. Um pouco mais conscientes de nossa responsabilidade para com o mundo.

Acredito que, em médio prazo, a Marcha da Vida mudará o perfil de nossa comunidade, que contará no futuro com centenas ou milhares de jovens e adultos que experimentaram essa vivência tão transformadora. Parece uma ideia utópica, mas acredito com firmeza que não se apagará dos corações e das mentes desses jovens tudo o que viram, sentiram e aprenderam durante essas duas semanas. Sei que não se apagará de minha alma. Toda a história e a cultura de nosso povo, transmitida desde imemoráveis gerações. Toda a dor e a alegria, todo o conhecimento e toda a Torá. Tudo aquilo que nos compele a, com justiça, ter orgulho de sermos quem somos. Sei que saberão utilizar tudo o que aqui receberam para o bem de nossa comunidade, de nossa sociedade e do mundo. Sei que o que viram aqui os inspirará a construir um futuro melhor. Tenho convicção plena de que essa experiência terá um grande impacto sobre a liderança de nossa comunidade e que esses jovens serão grandes líderes, conectados com suas raízes e preocupados com o mundo a seu redor, determinados a trabalhar pela construção de uma sociedade mais justa.

Obrigado a você, querido leitor, que veio com a gente nesta Marcha. Nos vemos amanhã, em casa.

Um comentário:

  1. Queridos Daniel, Salo e Nina,
    acompanho a segunda edição da Marcha, post a post. Primeiro com o Felipe, agora com a Fernanda. Mais uma vez agradeço o carinho, a atenção, a generosidade, o envolvimento de vocês. Foram dias incríveis, serão lembranças pra sempre. Nossa gratidão pelo tempo de sono subtraído pra editar os vídeos maravilhosos, pela disposição em escrever os textos que reportaram as as experiências e proporcionando pra gente a chance de acompanhar aqui de pertinho (como disse o Daniel, apenas 10 mil km) toda esta aventura. Um grande abraço e o desejo que este projeto tenha vida longa e se amplie cada vez mais. Vocês são inspiradores! Com muito carinho, Vera

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