sábado, 4 de maio de 2019

Shavua Tov!

Shavua Tov! Já´estamos de volta ao hotel após um Shabat incrível. Espero que o leitor também tenha aproveitado seu Shabat e não tenha sentido falta deste blog. Nós fizemos as duas coisas: aproveitamos MUITO o Shabat, mas mantivemos acesa a saudade!
 
É difícil descrever a sensação de passar um Shabat em Varsóvia. Ir na sinagoga e imaginar quantas gerações passaram por este lugar e entoaram as mesmas canções nos últimos mil anos.... Imaginar como eram as ruas da cidade numa sexta feira de tarde, quando o cheiro das chalot tomava conta de todo o bairro. Haviam aqui cerca de 300.000 judeus (um terço da cidade). Conta-se que somente na Rua Chlodna viviam algumas dezenas de rabinos...

Em Varsóvia não sobrou muito dos edifícios da época da Guerra - a cidade foi completamente arrasada pelos nazistas, de modo que muita coisa fica para a imaginação. Após a guerra, não foi uma prioridade para o governo comunista preservar ou reconstruir edifícios históricos. Ao contrário, aproveitaram a cidade em ruínas para fazer estradas largas que facilitassem a vinda de tanques soviéticos, caso se fizesse necessário. O legado judaico da cidade não era uma definitivamente prioridade. Nos últimos anos, no entanto, o governo polonês tem investido, em parceira com filantropos judeus, na preservação da história e da cultura judaica na Polônia. Como resultado, há hoje um moderno museu judaico em Varsóvia e cada vez mais lugares são preparados para visitação, contando a história da cidade e dos judeus aqui.

Gueto de Varsóvia após a Guerra


Bom, começo pelo começo.
  
Ontem à noite, fomos ao Kabalat Shabat na sinagoga de Noczyk (leia-se Nojik), a única que restou de pé na cidade após a guerra. Como disse antes, é emocionante pensar que recebemos o Shabat no mesmo lugar onde, por gerações, milhares vinham derramar seus corações. Olhar para suas paredes e pensar tudo o que elas já assistiram - para bem e para mal.

Hoje, a sinagoga continua ativa, transmitindo um clara mensagem: "Am Israel Chai" - O povo de Israel vive. Não são mais centenas de milhares de judeus em Varsóvia, mas isso não apaga o significado do lugar. Hoje, em toda a Polônia não há mais do que 8 ou 10 mil judeus. Ainda assim, a sinagoga continua ativa e viva, aberta todos os dias do ano e reunindo pessoas do mundo inteiro que vem aqui conhecer o passado, vislumbrar o futuro e manter viva a memória dos que se foram.

Nesta sexta, a sinagoga estava lotada. Repleta de jovens de todo o mundo. Foi um Kabalat Shabat com canções e dança. Inesquecível. Na saída, cantamos melodias e atravessamos a praça que separa nosso hotel da sinagoga cantando, imbuídos da alegria do Shabat.

Fomos jantar junto com os alunos do Renascença: músicas, histórias e muita diversão em torno de uma mesa de Shabat. Contamos histórias, cantamos e jogamos vários jogos. Foi um momento de integração entre os alunos das duas escolas.

Pela manhã, acordamos um pouco mais tarde do que de costume e saímos para conhecer a cidade. Fomos conhecer o que sobrou do Gueto. As ruas mudaram muito desde a época da guerra. A cidade foi levada a ruínas após levantes contra os nazistas - o famoso levante do Gueto, coordenado por grupos jovens judaicos e pelo famoso Mordechai Anilewicz e também o levante dos poloneses contra a ocupação nazista. Como resultado de seus heroicos esforços, pouco sobrou na cidade ao fim da Guerra. Na rua Mila 18, onde ficava o bunker da resistência, há hoje apenas grama. 

Após a chegada dos soviéticos, a cidade, que perdera também mais da metade dos seus habitantes, teve de se reerguer. Os russos, no entanto, patrocinaram a construção de uma cidade diferente da Varsóvia pré-guerra, trazendo para a cidade a influência da arquitetura soviética e apagando a maior parte dos vestígios das ruínas dos edifícios do que antes era o Gueto de Varsóvia. O entulho que sobrou foi soterrado e serviu como alicerce para as novas construções, elevando, em muitos lugares, o nível do solo. 

(Para quem se interessar, há aqui imagens de Varsóvia logo após a Guerra. É impressionante o que aconteceu com a cidade.)

Por isso, pouco sobrou do Gueto que, entre os anos de 1940 e 1943, os nazistas instituíram e para o qual todos os judeus da cidade e das cercanias eram obrigados a se transladar - o Gueto de Varsóvia. Somente um pedaço de muro aqui e outro ali e alguns poucos prédios que ficaram de pé.

O Gueto era enorme, o que torna ainda mais terrível imaginar a dimensão da tragédia. Seus muros cercavam 2.1% da área da cidade, onde foi confinada 30% da população. Onde antes moravam dezenas de milhares de poloneses (judeus e não-judeus), passaram a viver quase meio milhão de judeus. A superlotação, a fome, a miséria e a doença que mataram centenas de milhares faziam do Gueto um lugar que sequer podemos imaginar. As ruas estavam sempre cheias e movimentadas, pois era impossível passar o dia numa casa onde se apertavam dezenas de pessoas. A maior parte da comida do Gueto chegava através de contrabandistas, em geral crianças (que podiam esgueirar-se por aberturas no muro), pois a quantidade de ração diária que os nazistas deixavam entrar no Gueto estava calculada para não ser suficiente.

Daqui de Varsóvia, 300 mil judeus foram deportados para a morte em Treblinka e em outros campos e assassinados somente porque judeus. Centenas de milhares de poloneses da cidade também foram assassinados pelos nazistas - é possível enxergar a sombra que o Holocausto e a guerra lançam sobre Varsóvia até hoje e basta um olhar mais atento para perceber que há dezenas de monumentos e marcos históricos espalhados pelas ruas, a maioria com o objetivo de preservar a memória de acontecimentos terríveis e que serão eternamente lamentados pela humanidade.

Durante nosso passeio, encontramos um sobrevivente da Shoá que nos contou boas histórias. Ele esteve no campo de Plaszow, próximo a Cracóvia e, depois da Shoá, emigrou para Israel onde lutou ainda na guerra de INdependência, em 1948.

Paramos também na tenda montada em frente ao Museu Judaico de Varsóvia e conversamos com alguns rabinos locais que nos receberam com cupcakes e bebidas.

Seguimos depois a Cidade Velha (Stare Miasto) de Varsóvia. Na verdade, não é exatamente uma cidade velha, pois a parte antiga da cidade (como todo o resto) foi devastada na guerra e a cidade velha que vimos hoje foi construída no final do século 20 (a reconstrução terminou em 1984). De qualquer modo, a cidade foi reconstruída seguindo o estilo da cidade medieval e é muito bonita - como estar em um cartão postal.

Cidade Velha após a Guerra

Cidade Velha Hoje

Caminhamos pela cidade, conhecemos seus marcos históricos e tivemos algum tempo livre para passear por suas charmosas ruas. No final do Shabat, fizemos um círculo na praça central da cidade e recitamos a havdalá. Dezenas de pessoas se juntaram a nós e cantaram conosco "Hinê má tov umá náyim, shevet achim gam yachad" - como é bom e agradável irmãos estarem juntos!

Em resumo, foi um Shabat inesquecível!

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