quarta-feira, 8 de maio de 2019

Sobre Yom Hazikaron

Hoje é um dia muito especial em Israel: Yom Hazikaron - o dia em que todo o país lembra e chora aqueles que tombaram na defesa de Israel ou em atentados terroristas. Ontem à noite, fomos a Arad, a cidade mais próxima, para participar do ato municipal de Yom Hazikaron.

Ouvimos na praça, tomada por uma multidão, a sirene que proclamava o minuto de silêncio, o luto nacional, durante o qual a população emudece. O som que atravessa o país, conectando, por um minuto, todos os seus habitantes, em geral tão diferentes uns dos outros. Em meio a multidão de jovens e adultos que cobre toda a praça todos os anos nesta data, revela-se o rosto da tristeza deste dia. Hoje, em Israel, são lembrados 23.741 soldados caídos e vítimas do terror. Não se trata de um número estimado - aqui se sabe exatamente por quem se está chorando.

Aqui não há família que desconheça, com proximidade maior ou menor, a dor do Yom Hazikaron. Todo israelense tem um amigo, um primo ou mesmo um irmão que não voltará a ver. Ouvimos poemas e canções; escutamos o emocionado discurso do prefeito de Arad, que ressaltou a dor das famílias da cidade que perderam parentes. Uma cidade tão pequena, mas que lembra uma extensa lista de cinquenta e um habitantes que entregaram suas almas na defesa da nação.

Cada um dos nomes dos habitantes falecidos de Arad foi citado - um por um. Cada rosto foi mostrado no telão. Ninguém foi esquecido. Presenciamos aqui um ato triste, porém significativo. Se vimos na Polônia como os nazistas trataram de remover a humanidade de suas vítimas, tolhendo-lhes sua dignidade, seus nomes (trocados por números), seus pertences, seus cabelos... Aqui foi feito o contrário: cada um foi lembrado, através de seu nome, sua fotografia, sua família, suas lembranças, seus amigos - tudo o que o faz humano. Não estamos lembrando números, mas pessoas - cada uma delas, um mundo inteiro. Todos aqueles que se foram tem um nome.

Cerimônia de Yom Hazikaron ontem à noite em Arad

Compartilho com vocês abaixo um poema de Yehuda Amichai, em homenagem a Yonatahan Iachil  e lido hoje na praça (tradução livre deste que vos escreve):

Não temos soldados anônimos


Não temos soldados anônimos
Não temos tumba para soldado desconhecido.
Aquele que deseja depositar um ramo de flores,
Deverá desfazer sua oferenda
Em inúmeras pétalas finas
Multiplicá-las e dispersá-las ao vento.

Todos os mortos retornam a seus lares.
E todos eles tem nome,
E tu também, Yonathan,
Meu aluno, cujo nome está na lista de sua divisão,
Como também na que enumera os mortos.
Asim como fostes meu discípulo,
Fostes também dono de um nome,
Dono do teu nome.

A última vez que me sentei junto a ti
No caminhão que seguia por um caminho de terra
Próximo a Ein Guedi, 
O pó se levantava e cobria nossas costas
E não se podiam ver as montanhas.
O mesmo pó que ocultava
o que viria a ocorrer três anos depois:
Agora.

Peço também àqueles que não o conheceram:
Que o amem também após sua morte,
Que o amem agora que ele é oco,
Um lugar vazio, cuja forma é sua forma
E cujo nome é seu nome.


Yehuda Amichai

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