quinta-feira, 2 de maio de 2019

Um pouco sobre o Museu de Auschwitz

Um dia bonito, um tanto nublado, mas sob claro domínio da luz, nos recebeu hoje quando chegamos a Auschwitz. É terrivelmente desconfortável a controversa sensação da contraposição constante entre a beleza da paisagem com a feiura do que ocorreu aqui. Tão desconcertante que até faz parecer que tudo o que ocorreu aqui aconteceu em um outro mundo, que nada tem a ver com essa realidade. Mas aconteceu aqui.

Ao entrar no campo, percebemos o quanto ele é imenso. Na realidade, Auschwitz não é um campo, mas um conjunto gigantesco de campos de concentração, trabalho e extermínio. Os mais importantes campos desse conjunto são Auschwitz I e Auschwitz II, também conhecido como Birkenau e foi justamente nesse segundo que se deu a maior parte do mais terrível e sistemático genocídio que a humanidade já viu.

Auschwitz I abriga hoje um grande museu. São dezenas de pavilhões com objetos, documentos, explicações e, principalmente, vivências. Documentação que comprova tudo o que houve e revela um dos lados mais cruéis dos assassinos: fizeram tudo de modo frio, calculado, eficiente e ordenado. Tiraram vidas de crianças cujos nomes eram elencados em planilhas com a frieza de quem cuida da contabilidade de uma loja de móveis.

Por isso o Museu de Auschwitz é importante. Documenta. Desnuda com frieza realidades com as quais, não raro, preferimos não lidar. Expõe milhares de provas, de fotos, de objetos, relatos. Especialmente em um mundo tão confuso onde ainda existem negadores do holocausto e não faltam os que se recusam a enxergar a intolerância, o racismo, o preconceito e o mal que trazem ao homem e ao mundo.

Caminhamos pelos pavilhões  e fomos entender como funcionava essa terrível máquina de morte. Vimos câmaras de gás, locais de "experiências médicas" cruéis, objetos pessoais, fotos e listas de vítimas. Ouvimos algumas das histórias.

Há muitos agravantes macabros para o que ocorreu aqui. O primeiro é a mentira. Os nazistas, até os últimos momentos, enganavam cruelmente suas vítimas. Separavam homens de mulheres, como se a separação fizesse algum sentido diante do mesmo destino ao qual eram enviados. Diziam-lhe que seria um banho, que deveriam lembrar-se bem o número do cabide onde deixaram suas roupas para voltar. O segundo é a sistemática metódica. A eficiência na máquina de morte, como se não tratassem-se de vidas humanas. O terceiro é a desumanização - este sim tão terrível e tão real que precisa ser constantemente combatido, ainda hoje. Principalmente hoje. Essa é uma responsabilidade nossa - combater a desumanização do outro, daquele que é diferente.

Tudo o que aconteceu aqui só teve lugar porque os nazistas lograram desumanizar os judeus - tanto na forma de viver como na forma de morrer. Antes da guerra com a segregação, leis que os excluíam da categoria de cidadãos. Depois foram os guetos. Ao chegar no campo, eram despidos fisicamente e psicologicamente. Arrancavam-lhes as roupas e os cabelos, mas também seus nomes e suas famílias. Tudo o que faz de uma pessoa um ser humano. 

Pois todo mundo tem um nome. Pobres, ricos, feios e bonitos: todos tem nome. Até animais de estimação, já que são queridos e importantes, possuem nomes próprios. O judeu em Auschwitz não deveria possuir mais do que um número. E não podia ter roupas, cabelos, pertences pessoais ou identidade. Resignar-se a ser um zumbi sem expressão era a forma de sobreviver e de lutar e pouco parecia diferir da forma de render-se e se entregar.

Os nazistas queriam, pois, a morte dos judeus, mas não sem antes tirar-lhes a humanidade. Até mesmo depois da morte, os corpos eram tratados como objetos e explorados sempre que pudessem render aos nazistas qualquer valia - dos cabelos às obturações dentárias.

De certa forma, o que fazemos ao visitar a Polônia e os campos é devolver-lhes suas identidades. Devolver a cada um sua humanidade e seu nome. Ouvindo suas histórias, recordando quem foram, rezando por eles. Estamos aqui para assegurar e fazer ouvir ao mundo que cada ser humano é um mundo inteiro e cada vida será lembrada. Para que nunca volte a ocorrer.

O rabino Samson Rafael Hirsch, que viveu na Alemanha até 1888 e, portanto, muito antes do holocausto, escreveu em seus comentários sobre a Torá algo impressionante sobre o versículo "Os Egípcios escravizaram os judeus com Farech (dureza)" (Exôdo 1:13). Ele explica que a raiz da palavra Farech é desconhecida e não aparece em outros lugares das Escrituras. De acordo com ele Farech (Lehafrich) seria uma palavra aproximada para Lehafrid, que significa "separar", "apartar". Segundo ele, os egípcios primeiramente apartaram os judeus, tolheram seus direitos, quitando-lhes as prerrogativas de outros cidadãos. Os tratavam de forma "apartada", como se fossem uma raça inferior e não fossem humanos. Foi isso que permitiu que os egípcios pudessem atirar os bebês dos hebreus no Nilo sem ter qualquer piedade. Primeiro desumanizar para depois exterminar. O rabino escreveu isso 70 anos antes do holocausto, mas sua visão sobre a humanidade não poderia ser mais realista. Segundo ele, esse processo já aconteceu antes, mesmo que não tenha sido da mesma forma que o Holocausto. É nosso papel impedir que aconteça de novo.

Destaco aqui alguns pavilhões que marcam qualquer um que visita Auschwitz. O Pavilhão 27 foi transformado em uma moderna exposição, concebida e auspiciada pelo governo de Israel. A exposição foi inaugurada há apenas quatro anos. Lá, há um enorme livro, onde constam todos os nomes conhecidos das vítimas da Shoá, recolhidos pelo Yad Vashem. Quase todos temos sobrenomes (ou conhecidos) que constam na lista. 



Pavilhão 27 - Livro de Nomes


Pavilhão 27 - Livro de Nomes

Há ainda, nesse pavilhão, uma sala vazia em cujas paredes estão copiados a lápis desenhos feitos por crianças durante o holocausto (muitas delas, do campo de Terezin). Cada desenho atravessa a alma e atinge de forma lancinante o coração. Alguns retratam a vida em família, festividades judaicas. Outros falam do amor pela mãe. Outros desenhos, que jamais deveriam partir da pena de uma criança, retratam armas, forcas, arames farpados. Infâncias que, como tudo o mais nesse lugar, foram roubadas.

Desenhos de Crianças

Desenho de Criança - "Minha mãe, meu amor"


O pavilhão abriga também uma mostra de filmes a respeito do judaísmo antes do holocausto. Filmes tão diversos quanto os judeus. De religiosos e laicos, de cidades e aldeias, ricos e pobres. Pessoas patinando, jogando futebol, indo a festas, estudando, fazendo negócios.

Também passamos pelo pavilhão que abriga as provas materiais dos crimes nazistas. Toneladas de sapatos, cabelos humanos, malas, utensílios domésticos e diversos documentos.

Vimos Talitot - cada um pertenceu a um pai de família. Um pai que cobria seus filhos, protegendo-os sobre o manto sagrado, enquanto ouvia atento as bençãos dos cohanim. Em Auschwitz eram números. Vimos óculos, próteses, brinquedos e malas. Coisas que temos em nossas vidas e que fazem parte de nossas identidades - tudo fora confiscado. Só um ser humano tem pertences pessoais.






Vimos também a camâra de gás. Uma das engrenagens mais perversas da máquina de assassinar - o que permitiu ao covarde assassino não olhar suas vítimas: mulheres, crianças, idosos e homens de todas as idades.

Não é possível entender. Não é possível julgar. Mas é preciso testemunhar. E foi o que fizemos: registramos, vimos, caminhamos sobre seus dolorosos passos, mais de setenta anos depois.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Embarcados

Já estamos embarcados no último trecho. Nosso voo deve decolar às 12:45 e chegar em POA às 14:55h. Ou seja, em breve estaremos em casa. ...