Sei que os leitores desse blog aqui recorrem em busca dos sorrisos de seus queridos nas fotos e com o intuito de verificar que estão bem nutridos e corados. Mas não posso me furtar de compartilhar também algumas palavras sobre o que vivemos neste longo dia.
As imagens (aliás como são belas as imagens dessa viagem!) transmitem muito, mas a palavra, como sabemos, tem outro poder. A palavra cria. Transmite impressões, medos, sensações, odores. Acrescenta um tempero, de quando em vez, ao que é concreto, trazendo a ponderação e os filtros da percepção para a arena. Então, caro leitor, sempre que possível e que o tempo permitir, relatarei aqui um pouco da nossa experiência, ciente das limitações do vernáculo que, não raro, tornam impossível explicar o que sentimos ao lidar com a Shoá, especialmente depois de estar na Polônia.
Primo Levi dizia que o idioma precisaria ser alterado após o holocausto se a guerra durasse mais. Pois a palavra "fome", que usamos quando desejamos repetir o prato, não descreve o que sente alguém que não come há uma semana. A palavra "frio", muito utilizada nas noites frescas de Porto Alegre, não descreve o que sente alguém que é forçado a sair de noite, no inverno polonês, exposto à 20 graus negativos vestindo apenas uma camisa de flanela. Não há palavras humanas para descrever o que ocorreu aqui durante a guerra. Palavras também tem suas limitações. Sem embargo, são as ferramentas que temos, principalmente à distância que nos separa.
Bom, então vamos lá.
Estivemos hoje em Majdanek. Vimos de perto a crueldade da máquina nazista. Milhares de pessoas foram assassinadas neste terrível campo de concentração e extermínio. O campo ficava a poucos quilômetros da cidade de Lublin - certamente este é um dos aspectos mais perturbadores desse local: as pessoas estavam muito próximas e podiam ver de suas casas, na cidade, o que ocorria no lá, podiam perceber de seus lares o terror do campo em seu quintal. Silenciaram diante do mau cheiro e da fumaça constante dos crematórios.
Esse foi o primeiro Museu do Holocausto da história. Os russos chegaram aqui ainda antes do final da guerra, em 1944, (pois Lublin fica próximo à fronteira polonesa com a Rússia - na época União Soviética) e resolveram documentar a maldade e a morte que encontraram no lugar.
Ouvimos da Jéssica as palavras de Halina Birenbaum - que passou seus últimos momentos na companhia de sua mãe neste campo. Ouvimos sobre a dor de todos os dias. Sobre as insanas e sádicas ordens - por vezes aleatórias e ilógicas - dadas por oficiais somente para causar sofrimento (ou morte) aos prisioneiros judeus. Ouvimos as histórias de quem, aqui, viu pela última vez a sua mãe, seu irmão, seu filho.
Entramos num pavilhão. Toneladas de sapatos empilhados por todos os lados. Cada par representa uma pessoa - uma vida. Sapatos de crianças. Sapatos grandes e pequenos, de todos os tamanhos. Quem os haverá calçado? O que foi de suas vidas? Por onde andaram esses sapatos? O que é de seus donos?
Sapatos
Sapatos
Sapatos
Sapatos
Vimos a proximidade do campo com a cidade - os cidadãos que assistiam passivos ao massacre que ocorria diante de seus olhos, que sentiam o odor fétido da morte e percebiam as cinzas que emanavam do campo.
Proximidade com a cidade
Vimos os os alojamentos (verdadeiras armadilhas, onde a fome, a doença e as condições precárias eram cúmplices silenciosas dos nazistas em sua matança). Vimos o local onde os nazistas profanavam os corpos, a procura de dentes de ouro ou jóias que, eventualmente, a vítima poderia ter engolido na esperança de usá-las no futuro para subornar um guarda ou para conseguir um pedaço de pão. Nem mesmo após a morte podiam deixar que descansassem em paz. Ontem estivemos em Lodz e vimos o cuidado e a dignidade que a tradição judaica dedica ao corpo humano. Hoje vimos o oposto, corpos sendo profanados para arrancar todo o possível antes de serem jogados ao fogo. Vimos também os fornos crematórios - planejados especialmente para reduzir um ser humano à nada.
Alojamentos
Alojamentos
Mesa para profanar os corpos
Fornos Crematórios
Fornos Crematórios
Fornos Crematórios
Monumento
Monumento
Isso tudo aconteceu. E hoje estamos aqui, diante de tudo. Apesar de tudo. Daqui, deste lugar triste, de toda a dor e da morte, levaremos lições para a vida. Pois amanhã é outro dia. Amanhã é dia de marchar pela vida.
Impossível não se emocionar com estas imagens. Que todos aproveitem essa oportunidade para refletir sobre o valor da vida, o respeito às diferenças e a importância da liberdade. Amanha, em nossos corações, estaremos marchando junto com vocês.
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