quarta-feira, 1 de maio de 2019

Majdanek em Palavras

Sei que os leitores desse blog aqui recorrem em busca dos sorrisos de seus queridos nas fotos e com o intuito de verificar que estão bem nutridos e corados. Mas não posso me furtar de compartilhar também algumas palavras sobre o que vivemos neste longo dia. 

As imagens (aliás como são belas as imagens dessa viagem!) transmitem muito, mas a palavra, como sabemos, tem outro poder. A palavra cria. Transmite impressões, medos, sensações, odores. Acrescenta um tempero, de quando em vez, ao que é concreto, trazendo a ponderação e os filtros da percepção para a arena. Então, caro leitor, sempre que possível e que o tempo permitir, relatarei aqui um pouco da nossa experiência, ciente das limitações do vernáculo que, não raro, tornam impossível explicar o que sentimos ao lidar com a Shoá, especialmente depois de estar na Polônia.

Primo Levi dizia que o idioma precisaria ser alterado após o holocausto se a guerra durasse mais. Pois a palavra "fome", que usamos quando desejamos repetir o prato, não descreve o que sente alguém que não come há uma semana. A palavra "frio", muito utilizada nas noites frescas de Porto Alegre, não descreve o que sente alguém que é forçado a sair de noite, no inverno polonês, exposto à 20 graus negativos vestindo apenas uma camisa de flanela. Não há palavras humanas para descrever o que ocorreu aqui durante a guerra. Palavras também tem suas limitações. Sem embargo, são as ferramentas que temos, principalmente à distância que nos separa.

Bom, então vamos lá.

Estivemos hoje em Majdanek. Vimos de perto a crueldade da máquina nazista. Milhares de pessoas foram assassinadas neste terrível campo de concentração e extermínio. O campo ficava a poucos quilômetros da cidade de Lublin - certamente este é um dos aspectos mais perturbadores desse local: as pessoas estavam muito próximas e podiam ver de suas casas, na cidade, o que ocorria no lá, podiam perceber de seus lares o terror do campo em seu quintal. Silenciaram diante do mau cheiro e da fumaça constante dos crematórios.

Esse foi o primeiro Museu do Holocausto da história. Os russos chegaram aqui ainda antes do final da guerra, em 1944, (pois Lublin fica próximo à fronteira polonesa com a Rússia - na época União Soviética) e resolveram documentar a maldade e a morte que encontraram no lugar.

Ouvimos da Jéssica as palavras de Halina Birenbaum - que passou seus últimos momentos na companhia de sua mãe neste campo. Ouvimos sobre a dor de todos os dias. Sobre as insanas e sádicas ordens - por vezes aleatórias e ilógicas - dadas por oficiais somente para causar sofrimento (ou morte) aos prisioneiros judeus. Ouvimos as histórias de quem, aqui, viu pela última vez a sua mãe, seu irmão, seu filho.

Entramos num pavilhão. Toneladas de sapatos empilhados por todos os lados. Cada par representa uma pessoa - uma vida. Sapatos de crianças. Sapatos grandes e pequenos, de todos os tamanhos. Quem os haverá calçado? O que foi de suas vidas? Por onde andaram esses sapatos? O que é de seus donos?

Sapatos

Sapatos

Sapatos

Sapatos

Vimos a proximidade do campo com a cidade - os cidadãos que assistiam passivos ao massacre que ocorria diante de seus olhos, que sentiam o odor fétido da morte e percebiam as cinzas que emanavam do campo. 

Proximidade com a cidade

Vimos os os alojamentos (verdadeiras armadilhas, onde a fome, a doença e as condições precárias eram cúmplices silenciosas dos nazistas em sua matança). Vimos o local onde os nazistas profanavam os corpos, a procura de dentes de ouro ou jóias que, eventualmente, a vítima poderia ter engolido na esperança de usá-las no futuro para subornar um guarda ou para conseguir um pedaço de pão. Nem mesmo após a morte podiam deixar que descansassem em paz. Ontem estivemos em Lodz e vimos o cuidado e a dignidade que a tradição judaica dedica ao corpo humano. Hoje vimos o oposto, corpos sendo profanados para arrancar todo o possível antes de serem jogados ao fogo. Vimos também os fornos crematórios - planejados especialmente para reduzir um ser humano à nada.

Alojamentos

Alojamentos

Mesa para profanar os corpos

Fornos Crematórios

Fornos Crematórios

Fornos Crematórios


Num extremo do campo há hoje um monumento com as cinzas de milhares dos mortos de Majdanek. Fizemos lá uma breve encerramento e ouvimos da Jéssica um pouco da história de sua família. Por um momento, nos conectamos espiritualmente com todos aqueles que passaram por aqui.

Monumento

Monumento


Isso tudo aconteceu. E hoje estamos aqui, diante de tudo. Apesar de tudo. Daqui, deste lugar triste, de toda a dor e da morte, levaremos lições para a vida. Pois amanhã é outro dia. Amanhã é dia de marchar pela vida.

Um comentário:

  1. Impossível não se emocionar com estas imagens. Que todos aproveitem essa oportunidade para refletir sobre o valor da vida, o respeito às diferenças e a importância da liberdade. Amanha, em nossos corações, estaremos marchando junto com vocês.

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Embarcados

Já estamos embarcados no último trecho. Nosso voo deve decolar às 12:45 e chegar em POA às 14:55h. Ou seja, em breve estaremos em casa. ...